Editorial | Operação Mata Atlântica em Pé reforça acerto do Convergente

Loteamentos ilegais em terrenos rurais são principais responsáveis pela epidemia de desmatamento nas montanhas de Santa Teresa e de municípios vizinhos, apontam órgãos.

6 de outubro de 2022
atualizada em 6 de outubro de 2022
Flagrande feito pelos órgãos ambientais de loteamento no Circuito Caravaggio que derrubou Mata Atlântica e deixou solo exposto. Foto: Divulgação/Iema
Flagrande feito pelos órgãos ambientais de loteamento no Circuito Caravaggio que derrubou Mata Atlântica e deixou solo exposto. Foto: Divulgação/Iema

Na tarde da última terça –feira (04) o jornal A Gazeta publicou a notícia de que loteamentos ilegais nas montanhas capixabas são a principal causa da ‘febre’ atual de devastação da Mata Atlântica na região. A informação foi baseada no resultado da Operação Mata Atlântica em Pé, realizada a nível nacional, e que no estado ocorreu entre os últimos dias 19 e 28 de setembro.

 A operação foi coordenada pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) com participação do Ibama, Idaf, Iema, Agerh (Agência de Recursos Hídricos) e Polícia Ambiental. E flagrou 30,8 hectares de florestas derrubadas, a maior parte em municípios da região serrana – incluindo Santa Teresa.

Foram 38 boletins criminais registrados pela Polícia. E 21 autuações feitas pelo Idaf. Vale lembrar que a operação fiscalizou apenas 9 dos 78 municípios capixabas: Domingos Martins, Marechal Floriano, Santa Maria de Jetibá, Afonso Cláudio, Santa Leopoldina, Alfredo Chaves, além da Doce Terra dos Colibris. Todos da região serrana. Também houveram autuações em Linhares e Rio Bananal, ambos no norte capixaba.

A Operação Mata Atlântica em Pé é mais uma que envolve diversos órgãos e que confirma o que Convergente passou a noticiar no 1º semestre deste ano: a implantação indiscriminada de loteamentos em áreas rurais de Santa Teresa e de cidades vizinhas está gerando um cenário de devastação.

Situação que está afetando não só a qualidade de vida dos moradores locais, mas também de boa parte do Estado, ao comprometer a produção de água e alimentos da agricultura familiar, vocação das montanhas. E que também pode ter reflexos negativos no turismo, uma vez que a natureza, o bem estar climático e o equilíbrio social são ativos ameaçados diretamente por essa expansão imobiliária desordenada.

Difusão de ideias diferentes e busca por convergência

O Convergente nasceu como um espaço on line para difusão de ideias de diferentes atores interessados nas questões ambientais, sociais e culturais. A proposta foi e segue sendo a de apresentar diferentes ideias, pontos de vista, debatê-los e transformá-los em ações convergentes para a promoção da vida humana e do desenvolvimento sustentável.

Ao também investir no jornalismo ambiental a partir de fevereiro, o Convergente passou a receber denuncias graves de destruição ambiental ligadas a loteamentos na zona rural de Santa Teresa. E confirmou os problemas no Circuito Caravaggio, Alto Santo Antônio, Santa Lúcia, Alto São Lourenço, Penha e Valsugana Velha.

Cumprindo o papel de informar e resguardado pela Constituição Federal,veiculou reportagens sobre esses fatos, com vasto material fotográfico, audiovisual e documentação oficial que comprovam as irregularidades: destruição de nascentes, de vegetação em Área de Preservação Permanente (APP). Também de Mata Atlântica em estágio médio/avançado de regeneração. E ainda de parcelamento ilegal do solo.

Reportagens que sempre deram espaço ao contraditório. Procurando ouvir a Prefeitura, autora de autorizações de terraplanagem associada a esses loteamentos. Procurando também ouvir os órgãos ambientais do Estado. E ainda dando espaço para empresas e pessoas físicas responsáveis se pronunciarem, quando as mesmas foram citadas nominalmente nas matérias.

Mesmo assim o Convergente foi vítima de ataques por parte de alguns empresários. E até de lideranças de políticas interessadas em defender loteamentos pouco sustentáveis. Acusaram o Convergente de ser autor de fake news e chegaram ao cúmulo de intimidar a equipe do veículo durante uma solenidade na presença do governador, prefeito, deputados e vereadores.

Contudo, a realidade é implacável. O resultado da Operação Floresta em Pé e das outras duas anteriores, Curupira I e II, mostra que o Convergente acertou em cheio. No mais, é só ir aos locais retratados nas diversas matérias publicadas para constatar o tamanho da destruição ambiental a que está sujeita as montanhas de Santa Teresa e das cidades vizinhas. Um sacrilégio para a região que deu vez ao cientista, ambientalista e patrono nacional da ecologia, o teresense Augusto Ruschi.

Processo inevitável e que demanda regulamentação

O Convergente não é contra o parcelamento de terras rurais em áreas menores, como em chácaras, lotes e condomínios. Entende esse que esse processo é inexorável por conta da demanda do morador das cidades grandes em buscar uma vida mais saudável nas montanhas. E também compreende o fluxo de recursos que isso atrai para Santa Teresa e vizinhas.

Mas não pode se furtar ao papel de mostrar os excessos. Não dá para admitir projetos que destruam mais matas e nascentes. Isso passa por cima das leis. E coloca em risco a todos. Ademais, o município precisa debater e regulamentar essas ocupações, que hoje sequer pagam IPTU e ITBI, por exemplo, mas cada vez mais demandam infraestrutura pública, como coleta de lixo, iluminação, pavimentação, rede de esgoto. Lucro no bolso de alguns, conta paga por toda a população.

 

imagem de
Bruno Lyra
Jornalista especializado em coberturas ambientais e professor de geografia
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